“O
arqueólogo não escava objetos, mas civilizações”,
dizia Sir Mortimer Wheeler. E com razão: foi através do
exame meticuloso de documentos, monumentos e peças de arte, “testemunhos”
arqueológicos deixados por nossos antepassados, que a Arqueoastronomia
reconstituiu parte da história da Humanidade.
A Arqueoastronomia destina-se
por sua vez, a estudar o conhecimento astronômico dos povos antigos,
em especial do homem pré-histórico e aqueles que deram início
às civilizações. Surgida no final do século
passado, a moderna Arqueoastronomia (ou Arqueologia astronômica),
tem como precursor e fundador o astrônomo inglês Sir Norman
Lockyer (1836-1920), que se dedicou ao estudo dos alinhamentos das pirâmides
egípcias e das construções megalíticas ( de
mega = grande; lítico = pedra ) inglesas e francesas, em relação
às estrelas, ao Sol e à Lua.
Para o homem pré-histórico o firmamento tinha um significado
bem diverso do que nós, homem moderno, imaginamos. Para eles, sem
a poluição luminosa das grandes cidades, a harmonia da imensa
abóbada noturna de pontos luminosos, situada imediatamente acima
de suas cabeças (bem como a Lua) e, durante o dia o Sol e sua fonte
de luz (que aquecia e, igualmente, cegava), essa harmonia regia e ordenava
a sucessão de fenômenos que ocorriam no espaço terrestre
em que viviam, tornando-se, assim nessa visão de mundo, o componente
principal de sua existência.
A Astronomia é considerada a mais antiga das ciências e a
que desempenhou o mais importante papel em toda a história da humanidade.
Sendo assim, e que a criação da Arqueoastronomia tem um
papel fundamental neste contexto. Pois o mais primitivo ser humano, nosso
antigo ancestral, se interessou em observar os fenômenos astronômicos
que ocorriam a sua volta e, na medida do possível, tentou compreendê-los.
Sem saber, ele já estava praticando a Astronomia. Entretanto, os
primeiros registros da Astronomia só ocorreram por volta de 3.000
a.C. (antes de Cristo).
Para as tribos mais antigas, os astros tinham muita importância
prática. O Sol fornecia calor e luz durante o dia e a Lua luz durante
a noite. Ou seja, inicialmente a atenção dos homens primitivos
era atraída para os corpos celestes que afetavam diretamente sua
vida cotidiana. O desconhecimento da verdadeira natureza dos astros e
os sentimentos de curiosidade, admiração e temor por eles
produzidos, levou-os a acreditar na sua natureza divina. O Sol era um
deus e a Lua uma deusa. As estrelas eram luzes fixas num hemisfério
sólido sob o qual se estendia a terra plana. Foram com esses conceitos,
que mais adiante se constituiu a Astrologia ( “ciência das
adivinhações”).
INDICIOS ARQUEOASTRONÔMICOS
EM PERNAMBUCO
A seguir, trataremos de uma abordagem ainda não
citada na literatura etnológica e científica brasileira:
Trata-se de algumas conjecturas bastante pertinentes levantadas astrônomo
Audemário Prazeres, no momento de sua visita (cerca de três
anos), a cidade de Brejo da Madre Deus (206 Km do Recife) . Na ocasião,
a visita foi realizada na propriedade chamada "Pedra da Lua",
localizada naquele município, onde foi avistado algumas inscrições
rupestres de expressivo valor Arqueoastronômico.
A cidade de Brejo da Madre Deus, que a primeira vista pode não
ser conhecida no contexto nacional, mas certamente todos já ouviram
falar de Fazenda Nova, onde no TEATRO DE NOVA JERUSALÉM, que é
o maior teatro ao ar livre do mundo, é encenado todos os anos o
espetáculo da "PAIXÃO DE CRISTO". Pois Fazenda
Nova é distrito de Brejo da Madre Deus (em anexo um material de
referência dos pontos históricos de Brejo da Madre de Deus).

O DESENVOLVIMENTO DE UMA
LINGUAGEM
O progresso cultural do homem é expressa pela
comunicação e pela vida em sociedade. A linguagem era necessária
para a convivência em grupo. A linguagem do homem paleolítico
se baseava no início em gestos, sinais e desenhos e mais tarde
se baseava também na fala. O filme “Guerra de Fogo”,
demonstra esta situação.
É impossível, devido à complexidade do problema,
determinar como e quando o homem começou a fazer uso da linguagem
para se comunicar com os seus semelhantes. Segundo os estudiosos, o homem
primitivo pensava como criança, evocando imagens. A associação
da idéia advinda da percepção sensorial permitiu
o desenvolvimento do instinto criador, nascendo o rudimento do conceito,
que partiu do concreto para o abstrato. O abstrato é uma representação
mental. Foi a abstração que ocasionou o aparecimento da
linguagem. Com o tempo esta linguagem evoluiu e chegou a transmitir idéias
bem complexas. Neste contexto, há dois tipos de linguagem:
• A Natural – É
a linguagem dos animais. Eles só emitem sons;
• O Artificial ou Convencional –
É a linguagem humana. Devido a sua capacidade abstrativa o homem
convenciona um valor para os sinais. Entre esses sinais, nos deparamos
com as pinturas rupestres.
O QUE SÃO PINTURAS RUPESTRES?
Pinturas rupestres são pinturas e desenhos registrados
no interior de cavernas, abrigos rochosos e mesmo ao ar livre. São
artes do período paleolítico (pedra lascada), também
chamado de arte pariental e existe no mundo todo, inclusive aqui no Brasil.
As figuras geralmente representam imagens de animais como cavalos, mamutes,
bisontes e humanas, tendo como representação a caça,
danças, rituais ou guerreiros.
As pinturas eram executadas a dedo, com buril, com um pincel de pelo ou
pena, ou ainda com almofadas feitas de musgo ou folhas. Eram utilizados
materiais corante de minerais nas cores ocre-amarelo; ocre-vermelho e
negro.
Sempre utilizavam pigmentos de cores naturais, e percebemos que seus autores
tentavam obter a terceira dimensão, aproveitando os acidentes naturais
do teto e da parede das cavernas e também aplicando linhas de sombreamento
e braços de diferentes grossuras. Além das pinturas rupestres
a arte paleolítica também faziam esculturas em marfim, osso,
pedra e argila.
AS INSCRIÇÕES
ARQUEOASTRONÔMICAS EM PERNAMBUCO
Quando comentamos sobre a Arqueoastronomia aqui no Nordeste,
que possui uma imensa riqueza de informações registradas
em suas inscrições rupestres, nos permite fazer uso de algumas
conjecturas sobre a origem dessas figuras rupestres. Inclusive, essas
deduções podem servir como um auxílio para o controle
das interpretações dos painéis então retratados.
Por outro lado, esse campo de interpretações, principalmente
quando avistamos figuras isoladas, exige muita cautela nas explicações.
Pois, pode a referida figura representar uma gama enorme de significados.
Por exemplo: O que poderia ser associado a figura da Lua, pode ser uma
determinada depressão existente nas redondezas, ou alusivo a uma
espécie de canoa. O nosso Astro-Rei (Sol), pode ser retratado não
como entenderíamos como um astro, mas um simples colar (ou cocar
indígena).
Essas observações tornam-se necessárias, pois devemos
tomar certos cuidados para não afirmarmos categoricamente as interpretações
com um caráter conclusivo. Pois a Historia e a Arqueologia são
ciências que nos mostram um processo de transformação,
onde todos os homens são agentes das constantes mudanças
que ocorrem o processo histórico.
Assim sendo, para buscas de interpretações arqueoastronômicas,
devemos preferencialmente estudar os painéis que possuem símbolos
aparentemente astronômicos, sem estarem misturados com zoomorfos
e antropomorfos.
Apresento a seguir, algumas imagens localizadas na propriedade Pedra da
Lua em Brejo da Madre de Deus, onde desenvolvo algumas conjecturas referente
à sua existência. Na primeira imagem, vemos retratado no
painel

Nesta fotografia acima, vemos uma imagem que nos faz
lembrar uma representação de um “inseto gigante”,
ou um escafandro.

Observamos nesta imagem acima, um sinal claro de deteriorização
associado com marcas de degradação e esfoliação
(descamação), sejam de origem antrópica ou ação
intempérie. Mesmo assim, observamos no primeiro plano, uma imagem
do que poderia ser a imagem de um homem.
Na fotografia seguinte, vemos o astrônomo Audemário
Prazeres apontando para uma figura rupestre alusiva possivelmente ao nosso
Astro-Rei Sol. Deve-se ressaltar que a referida figura encontra-se disposta
isoladamente nesse enorme painel localizado na Pedra da Lua. Na imagem
seguinte observaremos maiores detalhes sobre esta figura apontada.

No detalhe da fotografia, vemos o que poderia ser
uma representação do nosso Sol.
Mas, podemos fazer algumas conjecturas, pois existe ao
lado uma representação na forma de riscos que sugere indicar
uma elevação.
Pois bem, estando diante da Pedra da Lua, e fazendo um giro visual no
entorno dessa pedra, avistamos algumas elevações de pedras
(montanha), que poderia ser uma justificativa do momento de visualização
dessa “estrela”.
Inclusive, pode esta estrela não ser uma representação
do Sol, mas do planeta Vênus, tão belo e de magnitude brilhante
que visto em seu período matutino – visto nas primeiras horas
da manhã (apelidado de Estrela Dalva), ou no seu período
vespertino visto no entardecer, foi registrado nesse painel.
Um fato que não deve ser ignorado, é o aspecto das raias
vistas nessa representação estelar (13 raias). Pois visualmente,
não é comum observarmos no Sol as raias (tanto pela sua
proximidade a Terra, e o seu intenso brilho ofuscante). Como também,
uma das diferenciações mais comuns entre as estrelas do
firmamento e as supostas “estrelas” que os planetas inferiores
se mostra no céu, vemos distintamente o enraiamento apresentado
por uma estrela e pelo um planeta. Um fato curioso, é que vemos
na arte computacional de uma gravura rupestre do que poderia ser novamente
o Sol (talvez eclipsado), no Sítio arqueológico da Boa Esperança
do Iguaçu no Paraná, uma quantidade de raias semelhante
a vista na “estrela” da Pedra da Lua. Ou seja: soma-se dez
raias.

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